A memória do ser humano é ao mesmo tempo seu maior trunfo e
vilão de seus dias. Cada momento vivido, bom ou mau, cada aprendizado, cada
pessoa que conhecemos, cada texto que escrevemos, as roupas que compramos, as
fotos que tiramos, o cheiro das coisas, os filmes, as canções, os lugares...
tudo armazenamos na memória na tentativa incessante de mantermo-nos vivos e
reforçar o poder de nossa existência nesta vida. A todo instante estamos
recordando, revirando nossos arquivos de memória e buscando saber mais, reviver
o passado, reformá-lo, reinventando o presente, na tentativa desenfreada de
alterar o futuro.
No entanto a lágrima da saudade também é a faca cortante, a
lembrança tanto alegra quanto fere, a memória que temos das coisas nos faz
prisioneiros de ciclos viciosos de dor, quase que desencadeados de forma
masoquista, pois fomos domesticados dentro da premissa que a dor é importante e
esquecer é descaso... com a vida, com as pessoas, conosco mesmos.
Fico imaginando como seria se não tivéssemos memória alguma.
Será que nós construiríamos todos os dias as nossas amizades, os nossos
relacionamentos amorosos, os laços de parentesco? Será que teríamos real
vontade de fazer esse esforço? Sem memória não nos sentiríamos na obrigação de
amar alguém pelo fato de esse alguém ocupar um espaço determinado em nossa vida
social, humana, biológica. Sem memória talvez não criaríamos expectativas para
com os outros, e tudo o que ocorresse seria novo, inesperado, portanto
aproveitado ao máximo, ou sofrido intensamente, mas apenas no tempo devido...
sem que houvesse perdurações.
A cultura religiosa talvez nos pressionasse a consciência –
se é que é possível ter uma sem que tivéssemos memória – nos acusando de
egoístas. No entanto, a verdadeira religiosidade humana, na qual o ser humano
deve buscar seu ponto de equilíbrio em si mesmo, fazer por si, cuidar de si,
teria na ausência de memória um grande alicerce para seus postulados. A cada
dia teríamos que realizar o exercício de introspecção e equilíbrio interno,
conhecendo-nos como se fosse sempre a primeira vez.
Conversaríamos com as pessoas buscando conhecê-las partindo
do zero. Será que isso tornaria superficiais os laços entre as pessoas uma vez
que não conseguiríamos aprofundarmos nossos conhecimentos dos outros? Será que
conseguiríamos ser mais felizes uma vez que esqueceríamos as desavenças e tudo
o mais que possa nos ter causado algum mal? Ou seria a permanência da memória
uma grande forma de aprendizado na qual podemos selecionar o que nos acrescenta
e podemos descartar o que nos prejudica e, assim, paramos de uma vez por todas
de buscarmos culpados para todas as situações, responsabilizando apenas a nós
mesmos por aquilo que queremos sofrer?

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