sexta-feira, 10 de agosto de 2012

MEMÓRIA





A memória do ser humano é ao mesmo tempo seu maior trunfo e vilão de seus dias. Cada momento vivido, bom ou mau, cada aprendizado, cada pessoa que conhecemos, cada texto que escrevemos, as roupas que compramos, as fotos que tiramos, o cheiro das coisas, os filmes, as canções, os lugares... tudo armazenamos na memória na tentativa incessante de mantermo-nos vivos e reforçar o poder de nossa existência nesta vida. A todo instante estamos recordando, revirando nossos arquivos de memória e buscando saber mais, reviver o passado, reformá-lo, reinventando o presente, na tentativa desenfreada de alterar o futuro.

No entanto a lágrima da saudade também é a faca cortante, a lembrança tanto alegra quanto fere, a memória que temos das coisas nos faz prisioneiros de ciclos viciosos de dor, quase que desencadeados de forma masoquista, pois fomos domesticados dentro da premissa que a dor é importante e esquecer é descaso... com a vida, com as pessoas, conosco mesmos.

Fico imaginando como seria se não tivéssemos memória alguma. Será que nós construiríamos todos os dias as nossas amizades, os nossos relacionamentos amorosos, os laços de parentesco? Será que teríamos real vontade de fazer esse esforço? Sem memória não nos sentiríamos na obrigação de amar alguém pelo fato de esse alguém ocupar um espaço determinado em nossa vida social, humana, biológica. Sem memória talvez não criaríamos expectativas para com os outros, e tudo o que ocorresse seria novo, inesperado, portanto aproveitado ao máximo, ou sofrido intensamente, mas apenas no tempo devido... sem que houvesse perdurações.

A cultura religiosa talvez nos pressionasse a consciência – se é que é possível ter uma sem que tivéssemos memória – nos acusando de egoístas. No entanto, a verdadeira religiosidade humana, na qual o ser humano deve buscar seu ponto de equilíbrio em si mesmo, fazer por si, cuidar de si, teria na ausência de memória um grande alicerce para seus postulados. A cada dia teríamos que realizar o exercício de introspecção e equilíbrio interno, conhecendo-nos como se fosse sempre a primeira vez.

Conversaríamos com as pessoas buscando conhecê-las partindo do zero. Será que isso tornaria superficiais os laços entre as pessoas uma vez que não conseguiríamos aprofundarmos nossos conhecimentos dos outros? Será que conseguiríamos ser mais felizes uma vez que esqueceríamos as desavenças e tudo o mais que possa nos ter causado algum mal? Ou seria a permanência da memória uma grande forma de aprendizado na qual podemos selecionar o que nos acrescenta e podemos descartar o que nos prejudica e, assim, paramos de uma vez por todas de buscarmos culpados para todas as situações, responsabilizando apenas a nós mesmos por aquilo que queremos sofrer?

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